Sobre amizades e milhões.

Geral, Pessoal, Sociedade

Há sete anos sai de casa, fui fazer faculdade em outra cidade. Depois minha carreira me levou pra mais distante. Vivendo de cidade em cidade, descobri que amigos se tornam nossa segunda família.

Hoje o Junior é isso, é família.  Apesar de sermos de cidades próximas, nos conhecemos depois dos 25 anos. Ambos vivemos em muitos lugares, acumulamos experiências, e hoje conversamos muito sobre elas.

O Junior é um livro aberto, sempre de bom humor e solícito. Tem carisma, energia. É comunicativo, disposto a conhecer o mundo.

Sou o oposto, resido em pensamentos, tô sempre distante. Apesar de não ser, pareço mal humorado. Sério e impaciente. Lógico e estrategista. Procuro entender o mundo.

Temos opiniões distintas sobre futebol, política e religião. As diferenças tornam a amizade e a convivência enriquecedora. Divergimos com respeito, argumentamos com embasamento. Conversamos desde amenidades do cotidiano, até reflexões profundas.

Esses dias, jantando no boteco da esquina, enquanto esperávamos o jantar ser servido, assistíamos ao Messi tentar fazer milagre com a fraca seleção da Argentina na Copa América, e a pauta era o que faríamos se oportunamente lográssemos umas dezenas de milhões na loteria.

O Junior pretendia investir nos negócios da família, voltar à cidade natal, ajudar financeiramente parentes e amigos. Já estávamos na rua, retornando ao prédio que somos vizinhos, quando já era minha vez de discorrer sobre meus milhões hipotéticos.

Verbalizava meus pretensiosos planos milionários com entusiamos, de repente, vimos um rapaz, parecia voltar do trabalho, mochila às costas, deveria ter nossa idade. Nesse instante, ele saca uma guia de deficiente visual e começa a tocar o solo enquanto troca de calçada.

Estamos no centro de Porto Alegre, são 23h, mas não há carros ou outras pessoas na rua. Somos só nós três, e o eco de seu instrumento a cada toque. Ora na esquerda, ora na direita, verificando os obstáculos do percurso. Agora estamos na frente do prédio, e não consigo tirar meus olhos do rapaz. Meus pensamentos diante do contexto me induziam a uma conclusão. O Junior me chamava longe, já no prédio: “Booora, Nathan”. Continuei o espectador da cena. Até o som ficar distante e o protagonista desaparecer na escuridão da histórica e peculiar Rua do Arvoredo.

Consegui entrar após um tempo, olhei pro amigo, concluí por nós, constrangido, quase um sussurro: “ambos já somos milionários, Junior. Basta perguntar àquele rapaz”.

Por Nathan Costa

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